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sábado, 14 de agosto de 2010

A Doença como Caminho para a Cura



Aluysio da Veiga*

O Budismo afirma que viver é sofrer, mas que é possível escapar ao sofrimento, para finalmente alcançar a libertação, a iluminação. Dois momentos, dois polos. Não haveria libertação sem que houvesse antes o aprisionamento, do mesmo modo que não é possível acender uma lâmpada sem o concurso de dois fios, um negativo e outro positivo. Por influência de uma educação pautada direta ou indiretamente na tradição religiosa de tronco cristão, tendemos a denegar o lado negativo da vida, das penas, do sofrimento, como se ele devesse ser destruído, como se, ao se eliminar tudo o que é ruim, fosse possível viver apenas com o lado positivo da vida.


Vimos condenando o desejo, como elemento produtor de sofrimento, esquecendo-nos porém que a própria existência de cada qual se deve a ele. Imaginemos uma geração de sábios, intelectuais em estado puro, imunes às insídias do desejo. Seriam os últimos, pois não produziriam frutos...


Assim, para haver equilíbrio, é preciso balancear os opostos. Na fase de desequilíbrio, as doenças da alma e do corpo se manifestam como gritos de alerta em busca do equilíbrio perdido. A natural homeostase orgânica supera muitos problemas, mas às vezes os vales de nossa senoide vital são por demais pronunciados, alastrando-se meses, anos, e quiçá vidas, para quem a reencarnação é um dado real. A doença como caminho, título de um conhecido livro, que atualiza a milenar abordagem da medicina natural: "não existem doenças, e sim doentes". Numa epidemia, os agentes patológicos são os mesmos para todos, mas muitos, embora igualmente expostos, não caem doentes. Resgatemos a antiga teoria dos "humores pecantes"; os micróbios não são a causa da doença, mas sim o seu efeito...; elevemos nossa energia interna e muitas vezes novos sintomas mórbidos aparecem ou reaparecem, pois agora há energia individual para que possam ser enfrentados.


Ao nos darmos conta desse processo dinâmico, a doença passa a ser um caminho para a cura total, a libertação ou iluminação almejada por diferentes tradições. A própria denominação de "são", aplicada aos seres considerados "santos", radica no que é sadio, saudável. Com efeito, somos saudáveis, na apropriação de uma semântica baseada na fonética, quando "saldamos" os débitos, equilibrando-os com os créditos de nossa economia individual.


Não deveríamos, pois, anatematizar a doença, mas encará-la como um obstáculo que quando ultrapassado nos levará a um novo patamar de energia interna. A cada degrau conquistado, a cada cura, um novo horizonte se descortina em nossa vereda de edificação individual. Curado é aquele que passou pela exposição aos embates da vida, assim como o queijo que é exposto à ação oxidante do ar, tornando-se mais saboroso. Mas, quem se entrega à doença acaba sucumbindo ao elemento que poderia, sob o ângulo proativo e propositivo, torná-lo mais são.


Busquemos, pois, o equilíbrio, evitando a rotina da inteligência e da emoção, procurando vivenciar novas experiências, produtoras de novas sinapses neuroniais e atualizadoras do fluxo vital essencial à saúde e à felicidade.
*Aluysio da Veiga é biólogo, escritor e pesquisador.

2 comentários:

Wania disse...

Tania querida!

Acredito demais em tudo que li aqui. Acho que a saúde é um estado que se conquista através da harmonia da nossa energia interna. Quando baixamos esta vibração, encontramos as "doenças" pelo caminho... que nada mais são que alertas para que busquemos outra vez o nosso ponto de equilíbrio.

As doenças são sempre as mesmas, mas os doentes são totalmente diferentes. Por isso, a Medicina tem êxito quando trata o doente e não a doença. A teia que envolve isso é muito maior do que se pensa... e quanto mais "respeitamos" estas conecções, mais sucesso teremos na busca desta harmonia mente/corpo/espírito tanto almejada por todos nós.



Lembrei-me de dois livros que li e adorei e acho estão em perfeita sintonia com este teu novo teu blog: O Ponto de Mutação e a Teia da Vida de Fritjof Capra!


Lindo post, belo espaço!
Lindos, também, são os caminhos que nos levam à cura...


Bj grande

Caminhos de cura disse...

Oi, Wania, cuidar dos doentes e não das doenças, penso também que seja este o caminho. Os livros que você sugere são mesmo de leitura fundamental para quem já começa a trilhar esse caminho da busca de equilíbrio, de harmonia. Obrigada pela sua colaboração.
Abraços,
Tânia