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sábado, 14 de agosto de 2010

Vendo o mundo através de olhos não-humanos



Ricardo Chequer-Chemas*

O defeito mais grave da raça humana se chama antropocentrismo. É apenas uma palavra um pouco complicada para egocentrismo, em sua acepção estritamente humana. Isto quer dizer que nós, seres humanos, temos o péssimo hábito de tudo ver através da nossa própria ótica, como se centro do universo fossemos. Lamentavelmente, não o somos. Muito pelo contrário, habitamos a reles periferia de uma galáxia imensa, onde o nosso sol é apenas uma dentre quatrocentas bilhões de estrelas. E a nossa galáxia, por sua vez, é apenas uma dentre centenas de bilhões de outras.
Porém, o pior não é isto. Questionado uma vez durante um programa da tv inglesa pelo então arcebispo da Cantuária, acerca de quais os atributos do Criador que puderam ser percebidos através do estudo de Sua criação, o famoso cientista e zoólogo inglês Haldane respondeu, para o horror do religioso: “Besouros, sua santidade... besouros! O Criador é fascinado por besouros”. E se explicou: “sessenta por cento da biomassa do planeta Terra é constituída de besouros, à exceção, é claro, dos microorganismos, que são maioria absoluta”.
O arcebispo ficou aterrorizado. Então, a ciência não confirmava a posição dita “superior” do Homem dentro da criação? Não, não confirmava. Somos apenas mais uma ínfima espécie zoológica dentre milhões de outras a habitar o planeta, e meros recém-chegados de apenas seiscentos mil anos, comparados, por exemplo, com a desprezível barata, que aqui já está há cerca de trezentos e cinqüenta milhões de anos, e que provavelmente ainda continuará a existir por outros tantos milhões de anos muito, muito após a nossa espécie arrogante e pelada haver passado para o registro fóssil. Pois a barata é capaz de sobreviver a circunstâncias extremamente mais adversas do que nós poderíamos suportar. Baratas vivem no escuro, ingerem uma dieta de sabão e fezes e, ainda assim, sobrevivem alegremente. Passam incólumes em meio ao bombardeio radioativo de uma catástrofe nuclear, de cuja ameaça ainda não nos livramos enquanto civilização.
É por tudo isto que vale a pena olhar o mundo através dos olhos compostos, mosaiciformes, metalizados e frios dos insetos. Pois eles, não nós, são os sobreviventes. A eles pertence, de fato, o mundo, que habitam sutilmente enquanto o matraquear vazio do falatório humanóide passa por cima de suas cabeças. São capazes de formar gigantescos superorganismos, seres imensos feitos de milhões de pequenos seres, como nos impressionantes conglomerados arquitetônicos dos termiteiros africanos, ou mesmo entremeados em nossa própria e vaziamente orgulhosa obra arquitetônica: são os cupins. Assim como as formigas e as abelhas, constituem multiorganismos onde cada individuo se constitui num único neurônio de um cérebro gigantesco, aterrador. O resultado concreto é uma espécie de “coisa” vasta e pensante que se arrasta silenciosa e atarefadamente, agindo de acordo com intenções e motivações das quais desconhecemos quase todas, exceto uma: sobreviver. Para que? Não sabemos. Você sabe para que você sobrevive? Para assistir o programa de auditório favorito na tv no final de semana? Para ter sexo com a sua companheira / companheiro à noite? Para levar os filhos ao futebol? Pois é, também não sabemos para que os insetos sobrevivem. Nem para que o Criador gerou muriçocas. Mas estas, como nós, existem e lutam de maneira selvagem por este direito.
Da próxima vez que você olhar um mosaico, por exemplo, numa obra de arte bizantina, pense duas vezes. Você está tendo uma pequena amostra da realidade interna dos insetos.

*Ricardo Chequer-Chemas é cientista, médico clínico, neuropisiquiatra e tem a evolução do planeta Terra como linha que norteia seus estudos.

A Doença como Caminho para a Cura



Aluysio da Veiga*

O Budismo afirma que viver é sofrer, mas que é possível escapar ao sofrimento, para finalmente alcançar a libertação, a iluminação. Dois momentos, dois polos. Não haveria libertação sem que houvesse antes o aprisionamento, do mesmo modo que não é possível acender uma lâmpada sem o concurso de dois fios, um negativo e outro positivo. Por influência de uma educação pautada direta ou indiretamente na tradição religiosa de tronco cristão, tendemos a denegar o lado negativo da vida, das penas, do sofrimento, como se ele devesse ser destruído, como se, ao se eliminar tudo o que é ruim, fosse possível viver apenas com o lado positivo da vida.


Vimos condenando o desejo, como elemento produtor de sofrimento, esquecendo-nos porém que a própria existência de cada qual se deve a ele. Imaginemos uma geração de sábios, intelectuais em estado puro, imunes às insídias do desejo. Seriam os últimos, pois não produziriam frutos...


Assim, para haver equilíbrio, é preciso balancear os opostos. Na fase de desequilíbrio, as doenças da alma e do corpo se manifestam como gritos de alerta em busca do equilíbrio perdido. A natural homeostase orgânica supera muitos problemas, mas às vezes os vales de nossa senoide vital são por demais pronunciados, alastrando-se meses, anos, e quiçá vidas, para quem a reencarnação é um dado real. A doença como caminho, título de um conhecido livro, que atualiza a milenar abordagem da medicina natural: "não existem doenças, e sim doentes". Numa epidemia, os agentes patológicos são os mesmos para todos, mas muitos, embora igualmente expostos, não caem doentes. Resgatemos a antiga teoria dos "humores pecantes"; os micróbios não são a causa da doença, mas sim o seu efeito...; elevemos nossa energia interna e muitas vezes novos sintomas mórbidos aparecem ou reaparecem, pois agora há energia individual para que possam ser enfrentados.


Ao nos darmos conta desse processo dinâmico, a doença passa a ser um caminho para a cura total, a libertação ou iluminação almejada por diferentes tradições. A própria denominação de "são", aplicada aos seres considerados "santos", radica no que é sadio, saudável. Com efeito, somos saudáveis, na apropriação de uma semântica baseada na fonética, quando "saldamos" os débitos, equilibrando-os com os créditos de nossa economia individual.


Não deveríamos, pois, anatematizar a doença, mas encará-la como um obstáculo que quando ultrapassado nos levará a um novo patamar de energia interna. A cada degrau conquistado, a cada cura, um novo horizonte se descortina em nossa vereda de edificação individual. Curado é aquele que passou pela exposição aos embates da vida, assim como o queijo que é exposto à ação oxidante do ar, tornando-se mais saboroso. Mas, quem se entrega à doença acaba sucumbindo ao elemento que poderia, sob o ângulo proativo e propositivo, torná-lo mais são.


Busquemos, pois, o equilíbrio, evitando a rotina da inteligência e da emoção, procurando vivenciar novas experiências, produtoras de novas sinapses neuroniais e atualizadoras do fluxo vital essencial à saúde e à felicidade.
*Aluysio da Veiga é biólogo, escritor e pesquisador.